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SAÚDE MENTAL E ENVELHECIMENTO FEMININO:CORPO, COBRANÇAS E TABUS EM UMA SOCIEDADE PATRIARCAL




A imagem da mulher relacionada à procriação, à maternidade e à reprodução vem de tempos remotos, cravada por afirmações de pensadores e filósofos essencialmente do sexo masculino. Um exemplo foi Aristóteles (2004), que em suas reflexões descreveu que era o macho quem proporcionava alma e vida para dentro do útero da fêmea. Mais adiante, na Idade Média, o olhar para que a mulher permanecesse bela, formosa e jovem era tido como essencial. Segundo Eco (2014), quando as mulheres perdiam seus “atributos” de beleza surgiam comparações negativas, pois, ao envelhecerem, tornavam-se símbolo de decadência física e moral. Esse conceito foi se propagando por tanto tempo que não apenas a sociedade, como as próprias mulheres, foram se influenciando e acreditando nessa imposição, comparando e observando seus próprios corpos.


Para as mulheres, o envelhecimento começa cedo: no momento em que passam a perceber mudanças físicas, endócrinas e biológicas, ou seja, no início do climatério. Contudo, são as mudanças no corpo, especialmente aquelas visíveis aos seus olhos, que muitas vezes passam a ser encaradas como um problema capaz de afetar o psicológico. De acordo com Benetti et al. (2019), essas alterações corporais compreendem ganho de peso, flacidez, mudanças na espessura e quantidade de cabelos, ressecamento da pele, entre outras. Ainda segundo os autores, essas mudanças no corpo da mulher climatérica podem repercutir de maneira negativa, ocasionando depressão por perderem traços ainda valorizados pela sociedade, como fertilidade, beleza e vigor.


As redes sociais e as grandes mídias são potentes propagadoras do culto ao corpo jovem. Nesse contexto, a valorização da juventude e da aparência física passa a ser continuamente reforçada por imagens, discursos e narrativas que estabelecem padrões estéticos muitas vezes inalcançáveis. A difusão constante dessas representações contribui para consolidar a ideia de que a juventude é sinônimo de beleza, vitalidade e valor social, enquanto o envelhecimento tende a ser associado à perda, ao declínio ou à invisibilidade. Para as mulheres, esse processo assume contornos ainda mais intensos, uma vez que seus corpos historicamente foram mais fortemente regulados e avaliados a partir de parâmetros estéticos e reprodutivos.


Assim, ao se depararem com os sinais do envelhecimento, muitas mulheres passam a confrontar não apenas transformações biológicas naturais, mas também expectativas sociais profundamente enraizadas que privilegiam a permanência da aparência jovem. Esse cenário pode favorecer a internalização de padrões que reforçam sentimentos de inadequação, insatisfação corporal e diminuição da autoestima. Nesse contexto, torna-se fundamental compreender que tais experiências não se restringem ao plano individual, mas estão inseridas em um conjunto de valores historicamente construídos em uma sociedade marcada por lógicas patriarcais que, ao longo do tempo, estabeleceram normas rígidas sobre o corpo e o papel social feminino.


Conforme observa Goldenberg (2005), em uma cultura marcada pela valorização da juventude, da beleza e da performance corporal, a velhice tende a ser socialmente associada à perda de prestígio e visibilidade. Nesse cenário, o corpo torna-se um importante marcador simbólico, contribuindo para a construção de representações sociais que frequentemente posicionam o envelhecer, sobretudo o feminino, em um lugar de menor reconhecimento social. Somados a esses fatores, os tabus que ainda cercam o envelhecimento da mulher e as constantes cobranças estéticas e comportamentais podem impactar diretamente sua saúde mental, evidenciando a necessidade de ampliar o debate sobre o envelhecimento feminino para além do campo biológico, incorporando dimensões sociais, culturais e psicológicas que atravessam a forma como essas mulheres vivenciam o próprio corpo e a passagem do tempo.


REFERÊNCIAS:


ARISTÓTELES. On the generation of animals. Whitefish, MT. Kessinger Publishing, 2004. 148 p.


BENETTI, I. C. et al. Climatério, enfrentamento e repercussões no contexto de trabalho: vozes do extremo norte do Brasil. Revista Kairós-Gerontologia, São Paulo, v. 22, n. 1, p. 123-146, mai. 2019.


ECO, U. História da feiura. 1 ed. Rio de Janeiro. Record, 2014. 453 p. GOLDENBERG, M. Gênero e corpo na cultura brasileira. Psic. Clín., Rio de Janeiro, v. 17, n. 2, p. 65-80, out. 2005.



Escrito por: Monica Tritone Medeiros

Líder criativa, redatora, escritora e pesquisadora em comunicação, gênero e longevidade. Doutoranda e bolsista Capes em ciências do envelhecimento naUniversidade São Judas Tadeu e Mestre em Psicogerontologia pelo Instituto Educatie de Ensino e Pesquisa. Tem 3 livros publicados: Um chapéu para Daniel (Editora Matrix), Cook for the Future - culinária e arte (Gastromotiva) e O corpo envelhescente - percepções de mulheres a partir dos 40 anos sobre seus corpos (Portal Edições).

 
 
 

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