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JUNHO VIOLETA: O PRECONCEITO OCULTO NA MAIOR CIDADE DA AMÉRICA LATINA


Há 20 anos o mês de Junho leva um significado diferente, e que reflete no futuro e na qualidade de vida de todos os cidadãos brasileiros. O dia 15 de Junho marca o dia da Prevenção a Violência à Pessoa Idosa, transformando o mês inteiro em um período de conscientização. Esse dia se originou de uma parceria entre a ONU e a Rede Internacional de Prevenção a VIolência à pessoa idosa (INPEA) e o movimento de conscientização cresceu de forma orgânica no país, que mostra certa mobilização da sociedade civil, mas também uma certa fragilidade do movimento. A importância dessa pauta se reafirma quando são relembrados os crescentes casos de violência contra o idoso em todo o país. De acordo com o Atlas da VIolência Brasileiro(IPEA,2026) entre 2014 e 2024, os registros de violência interpessoal contra idosos no sistema de saúde cresceram 226,3%, atingindo a marca de 30.097 casos anuais.


A violência


Nesse sentido, a violência contra a pessoa idosa é uma grave violação dos direitos humanos e pode se manifestar de diversas formas, incluindo violência física, psicológica, sexual, negligência e financeira. De acordo com dados do Disque 100, conforme relatório do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (2022), apontam que aproximadamente 90% das violações contra idosos acontecem dentro de casa. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, os agressores são, em sua maioria, indivíduos próximos à vítima: o(a) filho(a) teve um quantitativo de 54,68%, outros membros da família 13,54% e o vizinho 6,08%, evidenciando a predominância da violência intrafamiliar, toda e qualquer ação ou omissão que prejudique o bem-estar, a integridade física e psicológica, ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento de um integrante do núcleo familiar.


A pessoa idosa se torna uma vítima em potencial da violência intrafamiliar, por muitas vezes depender de seus familiares em diversos aspectos, seja nos cuidados da saúde, nas relações sociais, nas questões financeiras ou até mesmo pela simples convivência familiar (Gondim, 2011), o que dificulta que a denúncia seja feita, uma vez que a pessoa idosa depende do seu núcleo familiar e fica apreensiva em fazer a denúncia.


A violência física pode resultar em lesões e incapacitação, enquanto a violência psicológica, caracterizada por humilhações e manipulações emocionais, pode levar a quadros severos de depressão. E diante disso, um estudo realizado em Camaragibe, Pernambuco, Brasil, verificou que, em uma amostra de 315 idosos, 66 referiram sofrer de maus-tratos. O tipo de violência mais comum foi a psicológica (62,1%), seguida da física (31,8%). Desse modo, é difícil identificar a violência exercida contra o idoso, uma vez que não se trata apenas de agressão física, perceptível especialmente pelas marcas corporais resultantes, mas também de danos sociais, psicológicos e morais. Independente do tipo de abuso, seguramente resultará em sofrimento desnecessário, lesão ou dor, perda ou violação dos direitos humanos e redução na qualidade de vida do idoso.


Neste sentido, o conhecimento dos fatores de risco para ocorrência da violência permite identificar precocemente idosos que vivenciam esse agravo e/ou prevenir que tal situação aconteça no âmbito doméstico. Além disso, a velhice é frequentemente marcada por estigmas de incapacidade funcional e social, podendo reduzir o idoso à condição de “fardo” para seus responsáveis. Isso contribui para sua exclusão familiar e social, aumentando a vulnerabilidade à violência.


Idadismo e o selo


Muitos ainda acreditam, apesar dos dados de violência crescente, que o Estatuto da Pessoa Idosa já supre todas as necessidades que essa parcela crescente da população tem demandado. Mas, apesar do Estatuto ser uma das legislações mais avançadas do mundo na proteção ao idoso, ainda mais se considerarmos que em alguns países nem existe essa proteção, existe uma distância entre o instrumento criado e a cultura enraizada no idadismo.

O idadismo, de acordo com o Relatório Global sobre Idadismo publicado pela OMS em 2021, é definido como estereótipos (como pensamos), preconceitos (como nos sentimos) e discriminação (como agimos) direcionada a outros ou a si mesmo com base na idade, ainda esta muito presente na cultura dos brasileiros, apesar do crescimento de movimentos para a valorização da pessoa idosa.


Esses dados são reafirmados com o caso recente que aconteceu na Lapa, onde associações de moradores pediram a cassação de alvares de funcionamento de cerca de 40 Instituições de Longa Permanência locais. A principal alegação é que o zoneamento estritamente residencial torna incompatível a existência dos estabelecimentos na região e também alegam que os estabelecimentos causam barulho e desvalorizam os imóveis de alto padrão.

A sensação que fica é de criminalização da velhice, onde essas instituições, que são os lares de muitos idosos são vistas como incômodas e desnecessárias para o local o que reforça a forma negativa de como se pensa, sente e age sobre a velhice.


Tal pensamento reflete diretamente na percepção do próprio envelhecimento e em como o idadismo enraizado como um valor pessoal vai impactar na luta contra a violência da pessoa idosa. Já que, se um idoso, e as pessoas ao seu redor, não acreditam que ele tem valor, nem mesmo para morar em uma determinada região, também não haverá motivação para lutar por melhor qualidade de vida e políticas públicas eficazes de proteção.

Nesse cenário, em 2026, a Subprefeitura da Lapa aplicou multas que chegaram a R$ 13 mil e cassou seis alvarás de funcionamento na rua Tomé de Souza.


O argumento de zoneamento da região é um artifício para encobrir um fenômeno conhecido como “Not in my backyard”, que descreve a oposição de moradores a projetos de infraestrutura ou desenvolvimento imobiliário propostos para a sua vizinhança, embora apoiem esses mesmos projetos em outros locais. Nesse caso, eles não lutam contra a existência de ILPI´s, mas não querem que estejam próximos a eles, mais um reflexo do pensamento idadista de não querer ver a velhice.


Esse episódio ilustra bem as tres dimenções do idadismo definidos pela OMS (Esteriótipos, Preconceito e Discriminação) pois o idadismo institucional (cassação de alvarás) alimentado pelo idadismo interpessoal (queixas de vizinhos) que, por sua vez, reflete o idadismo cognitivo ("idoso é incômodo, devalorizador").


Esse cenário expõe muito bem a real situação da segurança da pessoa idosa, mas existe um paradoxo. Em outubro de 2025, o município de São Paulo recebeu o certificado de Cidade Amiga da Pessoa Idosa pela OMS, entregue ao prefeito Ricardo Nunes durante o 7º Fórum São Paulo de Longevidade. Com isso, São Paulo foi incluída na Rede Global de Cidades e Comunidades Amigas da Pessoa Idosa — que busca incentivar a criação de ambientes amigáveis e a troca de experiências entre municípios.


A mesma gestão que recebeu esse selo, meses depois, cassou alvarás de funcionamento, sem justificativas aparentes e sem direito de defesa por parte das ILPI´s, sob a pressão dos moradores.


Essa situação é material para uma reflexão importante: um selo, um dia ou mês de conscientização muda uma cultura? Como pode-se mudar a visão da sociedade sobre o idoso?


Reflexões como essa são essenciais pois suas respostas e resultados irão refletir diretamente na qualidade de vida, não apenas dos idosos de hoje, mas nos idosos do futuro. De acordo com o IBGE, em 2022, havia cerca de 32 milhões de pessoas com 60+ no Brasil, equivalente a 15% da população. A projeção é que, em 2030, idosos representarão 18,6% da população; em 2060, 25%. E São Paulo é, hoje, a maior cidade da América Latina — e está envelhecendo rapidamente.


Por isso, o Junho Violeta não pode ser mais uma campanha em que vestimos uma camiseta colorida e postamos uma foto nas redes sociais, tem que ser motivo de luta pelo nosso próprio futuro.



Referências

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CAMACHO, A. C. L. F.; CALDAS, C. P.; MENEZES, H. F.; ALVES, M. E. A. Perfil dos registros de violência à pessoa idosa no ano de 2024. Revista Amazônia Science & Health, v. 13, n. 2, 2025. DOI: 10.18606/2318-1419/amazonia.sci.health.v13n2p45-57.


CAMELLO FILHO, Rogerio Alvares. O fenômeno "Not in My Backyard" no direito condominial brasileiro: conflitos de vizinhança, autonomia privada e limites do exercício do direito de propriedade em ambientes coletivos. Revista de Estudos Interdisciplinares, v. 8, n. 3, p. 1-23, 2026. DOI: 10.56579/rei.v8i3.3691. Disponível em: https://revistas.ceeinter.com.br/revistadeestudosinterdisciplinar/article/view/3691. Acesso em: 8 jun. 2026.


GONDIM, R. M. Dependência familiar e vulnerabilidade da pessoa idosa à violência intrafamiliar.


IBGE. Censo 2022: número de pessoas com 65 anos ou mais de idade cresceu 57,4% em 12 anos. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos. Acesso em: 8 jun. 2026.


IBGE. Projeção da População do Brasil e das Unidades da Federação. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9109-projecao-da-populacao.html. Acesso em: 8 jun. 2026.


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INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Atlas da Violência 2026: Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, menor resultado da série histórica, mas subnotificação preocupa. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/categorias/45-todas-as-noticias/noticias/16394-atlas-da-violencia-brasil-registrou-42-590-homicidios-em-2024-menor-resultado-da-serie-historica-mas-subnotificacao-preocupa. Acesso em: 8 jun. 2026.


MINISTÉRIO DA MULHER, DA FAMÍLIA E DOS DIREITOS HUMANOS. Relatório Disque 100: violações de direitos da pessoa idosa. Brasília, 2022. (Dados citados sobre ocorrências dentro do ambiente doméstico).


MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS E DA CIDADANIA. Junho Violeta alerta para os diferentes tipos de violência praticadas contra pessoas idosas. Brasília, 2024. Disponível em portal do MDHC. Acesso em: 8 jun. 2026.


OLIVEIRA, A. A. V. de et al. Maus-tratos a idosos: revisão integrativa da literatura. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 66, n. 1, p. 128-133, 2013. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0034-71672013000100020.


ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Global Report on Ageism. Geneva: WHO, 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240016866. Acesso em: 8 jun. 2026.


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REIS, L. A. dos et al. Expression of domestic violence against older people. Acta Paulista de Enfermagem, v. 27, n. 5, p. 434-439, 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1590/19820194201400072.


G1 SÃO PAULO. Fechamento de casas de repouso na Lapa gera disputa entre moradores e acusações de etarismo: “velhice não é crime”. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/05/29/fechamento-de-casas-de-repouso-na-lapa-gera-disputa-entre-moradores-e-acusacoes-de-etarismo-velhice-nao-e-crime.ghtml. Acesso em: 8 jun. 2026.


VILA DE UTOPIA. Cidade que expulsa seus idosos expulsa a si mesma. Disponível em: https://viladeutopia.com.br/cidade-que-expulsa-seus-idosos-expulsa-a-si-mesma/. Acesso em: 8 jun. 2026.


VIVA. Moradores de bairro nobre de São Paulo querem fechar asilos da região. Disponível em: https://viva.com.br/cidadania-e-direitos/moradores-de-bairro-nobre-de-sao-paulo-querem-fechar-asilos-da-regiao.html. Acesso em: 8 jun. 2026.



Texto escrito por:


Isabella Cabrerisso Molina Graduanda em Gerontologia pela EACH-USP, com interesse em compreender o envelhecimento humano em suas múltiplas dimensões, neurociências, cognição e saúde mental. Acredita no conhecimento científico como ferramenta para promover qualidade de vida e envelhecimento mais saudável.
Isabella Cabrerisso Molina Graduanda em Gerontologia pela EACH-USP, com interesse em compreender o envelhecimento humano em suas múltiplas dimensões, neurociências, cognição e saúde mental. Acredita no conhecimento científico como ferramenta para promover qualidade de vida e envelhecimento mais saudável.
Ellen Gouvea Ormundo  Graduanda em Gerontologia pela EACH-USP. Possui interesse pela área biológica e pelas estratégias que promovem longevidade, saúde e qualidade de vida ao longo da vida. Busca aprofundar meus conhecimentos sobre os mecanismos biológicos envolvidos no envelhecimento e sua aplicação na promoção de um envelhecer mais saudável.
Ellen Gouvea Ormundo Graduanda em Gerontologia pela EACH-USP. Possui interesse pela área biológica e pelas estratégias que promovem longevidade, saúde e qualidade de vida ao longo da vida. Busca aprofundar meus conhecimentos sobre os mecanismos biológicos envolvidos no envelhecimento e sua aplicação na promoção de um envelhecer mais saudável.








 
 
 

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