Olhar Gerontológico Sobre o Envelhecimento da População Negra
- Liga de Gerontologia EACH USP
- 28 de ago. de 2024
- 4 min de leitura
As estatísticas e indicadores populacionais já evidenciam o envelhecimento populacional, tendo em vista diversos fatores que contribuem para que nossa sociedade esteja em processo de transição demográfica. O envelhecimento, por sua vez, não ocorre da mesma forma para todos, tanto no nível individual quanto no coletivo. Existem recortes sociais que precisam ser observados e compreendidos, para que políticas públicas eficazes possam ser elaboradas de forma consciente, técnica e baseadas nas necessidades reais dos diferentes grupos sociais, promovendo um bom envelhecimento.
Um desses recortes sociais é a população negra, a qual possui particularidades que merecem atenção quando a intenção é a promoção da dignidade ao envelhecer. Devido a diversos fatores, em especial o fator sócio histórico, essa parcela da população enfrenta preconceitos e uma história marcada por desigualdades que afetam as oportunidades, acessos e qualidade de vida. O racismo e a marginalização, que indubitavelmente fazem parte da vida de milhares de pessoas negras ao longo de suas trajetórias pessoais refletem consequências nessas velhices. São questões que jamais podem ser ignoradas ao ter um olhar gerontológico para o envelhecimento sobre esse grupo, uma vez que a identidade racial desses indivíduos é historicamente, questionada, marginalizada e estereotipada
Atualmente, segundo dados do Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Ministério da Igualdade Racial do Governo Brasileiro, a população negra compõe aproximadamente 56% da população brasileira, ou seja, mais da metade da nossa sociedade. Tendo isso em vista, é imprescindível que o envelhecimento desta parcela populacional seja levado em consideração a partir de suas necessidades particulares, seus aspectos biopsicossocioculturais e ambientais, além da qualidade e atenção em saúde direcionada, bem como repensar o contrassenso entre a realidade da nossa sociedade ser majoritariamente negra, mas ainda enfrentar uma condição de minoria em direitos, acessos e qualidade de vida. Para todas essas questões, as políticas públicas voltadas a esta população são essenciais, especialmente as que visem dignificar seu processo de envelhecimento e velhice.
No que diz respeito às políticas públicas e à dignidade no envelhecimento da população negra, é importante citar uma política que impacta diretamente a qualidade de vida e tende a refletir em bons resultados na velhice: as cotas raciais. Esta política pública educacional visa corrigir a desigualdade de acesso à educação superior no Brasil entre pessoas brancas e PPI (pretas, pardas e indígenas). Além de todos os benefícios mercadológicos e pessoais que o ensino superior pode promover, já se sabe no campo de estudo das Neurociências que maiores níveis de escolaridade estão associados a menores índices de desenvolvimento de demências na velhice. Portanto, democratizar o acesso à educação superior para parcela populacional historicamente menos favorecida é também criar um viés de prevenção indireto contra demências para esse grupo.
Outro aspecto a ser considerado e que pode impactar a qualidade de envelhecimento da população negra é o preconceito acerca das religiões de matriz africana e daqueles que as praticam, pois se desdobra em um determinado tipo de violação à liberdade religiosa e possivelmente implica represálias em expressar a fé ao longo de sua trajetória de vida. A identidade cultural é um aspecto que, quando represado ou impactado negativamente, pode afetar o bem-estar geral e subjetivo, aspectos estes, muito prezados pela Gerontologia ao avaliar a qualidade de envelhecimento de uma pessoa ou de um grupo.
Em estudo realizado em 2021 na cidade de São Paulo, observou-se que pessoas idosas negras avaliaram sua saúde de maneira mais negativa: 45,5% dos idosos pardos e 47,2% dos idosos negros relataram seu estado de saúde como ruim, regular ou muito ruim, em comparação com 33% dos idosos brancos. O estudo envolveu uma análise estatística para compreender como as condições sociais e de saúde, além de variáveis demográficas, socioeconômicas e comportamentais, se relacionam com o uso e acesso aos serviços de saúde, considerando a cor da pele ou raça autodeclarada. Foram analisados dados de 1.017 pessoas idosas da cidade de São Paulo coletados pelo Inquérito de Saúde do Município de São Paulo.
Embora a população negra seja a maioria no Brasil, essa faixa etária representa uma minoria entre pessoas com 60 anos ou mais, devido à menor expectativa de vida dos indivíduos negros em comparação aos brancos. Com essa pesquisa, é possível compreender a desigualdade racial inclusive em aspectos de saúde e anos de vida, o que deve sensibilizar o olhar gerontológico em buscar compreender onde estão as lacunas destas desigualdades.
Por fim, compreendemos que o envelhecimento da população negra demanda muitas questões, pois nos revela fatores históricos que se desdobram nas condições que se tem na atualidade. Contudo o olhar gerontológico deve permanecer atento e sensível, sendo integral e compreendendo as desigualdades envolvidas, além de contribuir para melhores políticas que dignifiquem todo o ciclo de vida das pessoas negras para que estas vivam velhices melhores.
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Assina este texto: Bianca Caroline de Felício
Estudante do Bacharelado em Gerontologia na EACH USP - Turma de 2021.
Pesquisadora em Iniciação Científica sobre a Rede de Suporte Social de Pessoas Idosas, sob orientação da Profª. Drª. Marisa Accioly.
Estagiária no Conselho Municipal da Pessoa Idosa da Cidade de São Paulo (CMI/SMDHC).
Intercambista no programa de “Gerontologia Social” do Instituto Politécnico de Coimbra, em Portugal.
Membro da Diretoria Científica da Liga de Gerontologia da EACH USP.
Referências:
BRASIL. Ministério da Igualdade Racial. População negra no Brasil. Disponível em: https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/composicao/secretaria-de-gestao-do-sistema-nacional-de-promocao-da-igualdade-racial/diretoria-de-avaliacao-monitoramento-e-gestao-da-informacao/hub-igualdade-racial/populacao. Acesso em: 27 ago. 2024.
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Escolaridade é fator protetor para diminuir risco de Alzheimer e outras demências na terceira idade. Faculdade de Medicina da USP, 2023. Disponível em: https://www.fm.usp.br/fmusp/noticias/escolaridade-e-fator-protetor-para-diminuir-risco-de-alzheimer-e-outras-demencias-na-terceira-idade. Acesso em: 27 ago. 2024.
LONGEVIDA. Estudo aponta que saúde de idosos negros em São Paulo é pior. Disponível em: https://www.longevida.ong.br/estudo-aponta-que-saude-de-idosos-negros-em-sao-paulo-e-pior/#:~:text=Na%20pesquisa%20conduzida%20pelo%20doutor,esse%20n%C3%BAmero%20foi%20de%2033%25. Acesso em: 27 ago. 2024.
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Saúde de idosos negros no município de São Paulo é pior que a de idosos brancos, aponta estudo. Jornal da USP, 2023. Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/saude-de-idosos-negros-no-municipio-de-sao-paulo-e-pior-que-a-de-idosos-brancos-aponta-estudo/. Acesso em: 27 ago. 2024.
GIFE. Pessoas brancas vivem mais e melhor a velhice do que pessoas negras, aponta relatório. Disponível em: https://gife.org.br/pessoas-brancas-vivem-mais-e-melhor-a-velhice-do-que-pessoas-negras-aponta-relatorio/. Acesso em: 27 ago. 2024.
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