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Envelhecimento, cidadania e participação: o que representa o voto 60+

30 de set.
7 min de leitura

O Brasil está envelhecendo. Essa transformação demográfica já pode ser percebida em diferentes espaços da sociedade e também nas urnas. À medida que aumenta o número de pessoas com 60 anos ou mais, cresce também a participação dessa população entre as eleitoras e os eleitores brasileiros. Nas eleições de 2026, o chamado voto 60+ representa uma parcela expressiva do eleitorado e coloca em evidência uma questão que vai muito além dos números: Qual é o lugar da pessoa idosa na construção política e social do país?


De acordo com dados do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), mais de 8,5 milhões de pessoas com mais de 60 anos estão aptas a votar nas eleições de 2026 no estado, o que corresponde a quase 25% do eleitorado paulista. Em uma década, entre 2016 e 2026, esse grupo cresceu mais de 2,2 milhões de eleitoras e eleitores, um aumento de 36,2%. Entre as pessoas com mais de 70 anos, faixa etária para a qual o voto é facultativo, são cerca de 3,8 milhões no estado. No país, a população 60+ representa entre 23% e 24% do eleitorado, segundo a CNN Brasil.


Esses números acompanham uma transformação mais ampla da sociedade brasileira. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais na população subiu de 11,3% para 16,6% entre 2012 e 2025. O crescimento da população idosa modifica não apenas a composição etária do país, mas também as demandas sociais, econômicas e políticas que precisam ser consideradas na construção do futuro.


O peso do eleitorado 60+, nas urnas cresce mais rápido que o público em geral. Segundo o levantamento da Nexus – Pesquisa e inteligência de Dados, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) coletados em março de 2026, o número de eleitores e eleitoras com 60 anos ou mais aptos a votar no país passou de 20,8 milhões em 2010 para 36,2 milhões um aumento de 74%, enquanto o eleitorado total cresceu 15% no mesmo período. Hoje, esse  grupo corresponde a 23,5% do eleitorado nacional, ou seja, quase um a cada quatro votos.A proporção se  repete nos maiores colégios eleitorais : 25% em São Paulo, 26% em minas gerais e 28% no rio de janeiro, estados que juntos somam cerca de 16 milhões de pessoas idosas.



O voto depois dos 60


O artigo 14 da Constituição Federal estabelece o voto obrigatório para pessoas alfabetizadas entre 18 e 70 anos. Depois dos 70, o voto passa a ser facultativo, assim como para pessoas analfabetas e para adolescentes de 16 e 17 anos. Isso significa que a pessoa com mais de 70 anos não perde o direito de votar: ela passa a ter a possibilidade de escolher se deseja ou não participar das eleições.


Essa diferença é importante porque o voto facultativo não significa ausência de cidadania ou afastamento da vida política. A pessoa idosa continua tendo o direito de participar das decisões coletivas por meio das urnas.


O voto é apenas uma das formas de participação política, mas representa uma das maneiras mais diretas de exercer a cidadania em uma democracia. Quando uma pessoa idosa escolhe comparecer às urnas, ela participa da escolha de representantes e das decisões que influenciam os caminhos da sociedade.


O eleitorado 60+ não é um grupo homogêneo


Apesar de frequentemente ser tratado como uma única categoria, o eleitorado 60+ é extremamente diverso. Uma pessoa de 60 anos pode estar trabalhando, estudando, cuidando de familiares ou iniciando novos projetos. Uma pessoa de 80 anos pode ter uma rotina completamente diferente de outra da mesma idade. Questões como gênero, raça, renda, escolaridade, território, condições de saúde, mobilidade, acesso à tecnologia e redes de apoio produzem diferentes experiências de envelhecimento.


A diversidade aparece também nos números. Segundo o IBGE, citado pelo Nexus/FSB, as mulheres vivem em média 6 anos a mais que os homens e representam 56% da população idosa do país, o que aponta para uma "feminização" da velhice. Há ainda diferenças regionais: em 2026, as pessoas 60+ são 29,3% do eleitorado no Rio Grande do Sul, mas, em média, 16,5% na região Norte, com o menor índice no Amapá (14,5%).


Por isso, falar em “voto dos idosos” como se todas as pessoas idosas tivessem as mesmas necessidades, opiniões ou preferências políticas contribui para uma visão estereotipada da velhice. O envelhecimento é heterogêneo, e essa diversidade também precisa ser reconhecida quando falamos sobre participação política.


O que está em jogo quando falamos sobre envelhecimento?


A presença expressiva das pessoas 60+ no eleitorado também chama atenção para uma questão fundamental: o envelhecimento precisa fazer parte das discussões sobre o futuro do país.


Políticas de saúde, previdência e assistência social são frequentemente lembradas quando se fala sobre a população idosa. Entretanto, as necessidades relacionadas ao envelhecimento são muito mais amplas. Mobilidade urbana, moradia, acessibilidade, segurança, trabalho, renda, educação, cultura, lazer, inclusão digital e combate ao idadismo também fazem parte da construção de condições dignas de envelhecimento. Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV, ouvido pela CNN Brasil, as políticas públicas voltadas ao envelhecimento estão entre as grandes falhas do país, e pensar a aposentadoria e as condições de vida de quem deixa o mercado de trabalho é um dos principais desafios para o futuro.


O envelhecimento também pressiona a sustentabilidade da previdência: segundo estimativas do IPEA citadas pelo Nexus/FSB, o Brasil passaria de cerca de 2 contribuintes por beneficiário, em 2014, para menos de um trabalhador na ativa (0,69) financiando cada aposentado em 2060.


Pensar politicamente sobre o envelhecimento significa reconhecer que essas questões não dizem respeito apenas às pessoas idosas de hoje. As decisões tomadas no presente também irão determinar as condições em que as próximas gerações irão envelhecer.


O debate sobre o voto 60+, portanto, não deveria ser reduzido à quantidade de votos que esse grupo representa. Ele também precisa considerar quais são as condições oferecidas para que essas pessoas participem da sociedade e tenham suas demandas reconhecidas.


Quando existem barreiras para votar


Ter o direito ao voto garantido pela legislação não significa que todas as pessoas encontrem as mesmas condições para exercê-lo.


Para uma pessoa com mobilidade reduzida, por exemplo, chegar até uma seção eleitoral pode envolver dificuldades relacionadas ao transporte, à infraestrutura urbana ou à acessibilidade do próprio local. Outras pessoas podem enfrentar barreiras relacionadas à comunicação, à tecnologia ou à necessidade de apoio durante o deslocamento.


A tendência recente também contradiz a ideia de desinteresse. Entre 2014 e 2022, a abstenção das pessoas com 60 anos ou mais caiu de 37,1% para 34,5%, enquanto a do eleitorado em geral subiu de 19,4% para 20,9%. Mesmo entre os maiores de 70 anos, que votam sem obrigação legal, ela diminuiu de 63,6% para 58,9%.


Esse cenário não deve ser interpretado simplesmente como falta de interesse político. Entre 2014 e 2022, o comparecimento dos 60+ nos pleitos nacionais cresceu em 21 estados, de acordo com o mesmo levantamento. O Esquerda Online, por sua vez, aponta entre os motivos para a abstenção a não obrigatoriedade do voto, a desvalorização do eleitorado idoso e as dificuldades de acesso aos locais de votação. A participação eleitoral, portanto, é influenciada por diferentes fatores, entre eles a própria facultatividade e as condições de acesso às seções.


Garantir uma democracia participativa também significa pensar nas barreiras que podem impedir determinados grupos de exercer seus direitos, inclusive na forma como as campanhas se comunicam. Segundo os especialistas ouvidos pela CNN Brasil, o eleitorado 60+ tende a se aproximar mais dos veículos de comunicação tradicionais e da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, o que exige estratégias específicas de quem quer ser ouvido por esse público.


A pessoa idosa como sujeito político


Durante muito tempo, a velhice foi associada a ideias de dependência, incapacidade e afastamento da vida social. Essas representações contribuem para o idadismo ao produzir estereótipos e preconceitos relacionados à idade.


Quando a sociedade pressupõe que uma pessoa idosa não tem interesse em política, não compreende tecnologia, não consegue tomar decisões ou não deveria ocupar determinados espaços, também está limitando sua participação social. Nesse sentido, reconhecer a pessoa idosa como sujeito político também é uma forma de combater o idadismo.


Os números de candidaturas apontam nessa direção. Segundo dados do TSE divulgados pelo Nexus/FSB, as eleições gerais de 2022 tiveram 4.873 candidatas e candidatos com 60 anos ou mais (17% do total), recorde para esse tipo de pleito, e em 2024 mais de 70 mil pessoas 60+ se candidataram, o maior número desde o início da série histórica, em 1998.

Na composição do eleitorado, o peso das pessoas 60+ é quase o dobro do dos jovens de 16 a 24 anos, que representam 11,9%, de acordo com o Nexus/FSB.


A pessoa idosa não deve ser vista apenas como alguém que recebe políticas públicas. Ela também é cidadã, eleitora, trabalhadora, estudante, integrante de famílias, comunidades e movimentos sociais e participante ativa da construção da sociedade.


Envelhecer também é participar


O crescimento do eleitorado 60+ acompanha o envelhecimento da população brasileira e mostra que a velhice precisa estar cada vez mais presente no debate público.


Em 2022, 8,8 milhões de pessoas com mais de 70 anos não compareceram às urnas, segundo o Nexus/FSB, número que ajuda a dimensionar o que está em jogo quando se fala em condições de acesso e em escuta.


Mais do que perguntar quantas pessoas idosas irão votar, é necessário perguntar se elas estão sendo ouvidas, se suas diferentes experiências estão sendo consideradas e se os espaços de participação política são acessíveis.


O voto 60+ não representa uma única opinião, uma única demanda ou uma única forma de enxergar o futuro. Representa milhões de pessoas diferentes, com histórias, necessidades e perspectivas diversas. Por isso, discutir o voto 60+ é discutir cidadania, democracia e envelhecimento.


Em uma sociedade que envelhece, pensar no futuro também significa reconhecer que as pessoas idosas não estão apenas vivendo o futuro que foi construído para elas: elas também participam da construção do futuro de todos nós.



Referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 14. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 20 set. 2026.

CNN BRASIL. Com 23% do eleitorado, voto 60+ ganha destaque; especialistas avaliam. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/com-23-do-eleitorado-voto-60-ganha-destaque-avaliam-especialistas/. Acesso em: 20 set. 2026.

ESQUERDA ONLINE. O voto 60+ importa e decide. 9 set. 2026. Disponível em: https://esquerdaonline.com.br/2026/09/09/o-voto-60-importa-e-decide/. Acesso em: 20 set. 2026.

NEXUS/FSB. Quantidade de brasileiros com mais de 60 anos aptos a votar cresce 5 vezes mais do que o eleitorado geral nos últimos 16 anos. Disponível em: https://www.nexus.fsb.com.br/estudos-divulgados/quantidade-de-brasileiros-com-mais-de-60-anos-aptos-a-votar-cresce-5-vezes-mais-do-que-o-eleitorado-geral-nos-ultimos-16-anos/. Acesso em: 20 set. 2026.

TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DE SÃO PAULO (TRE-SP). Eleições 2026: saiba quem é obrigado a votar e quem tem o voto facultativo. Set. 2026. Disponível em: https://www.tre-sp.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Setembro/eleicoes-2026-saiba-quem-e-obrigado-a-votar-e-quem-tem-o-voto-facultativo. Acesso em: 20 set. 2026.



ESCRITO POR: GUILHERME ALEXANDRE RAMOS 

Estudante de graduação em Gerontologia pela Universidade de São Paulo (USP) desde 2023.

Participa de atividades acadêmicas voltadas ao desenvolvimento em pesquisa, extensão universitária e promoção da saúde da pessoa idosa. Atualmente integra a Liga Acadêmica de Gerontologia e o Laboratório de Neurofarmacologia, onde desenvolve pesquisa como bolsista PIBIC, investigando os efeitos de microdoses de lítio no envelhecimento cerebral, neuroplasticidade e neurodegeneração. Também participou de projetos de extensão voltados ao letramento digital e ao ensino de inglês para pessoas idosas.



 
 
 

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